Plantio de soja com excesso de chuva: como operar no Sul em ano de El Niño forte 

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O plantio de soja com excesso de chuva é o desafio do Sul nesta safra. Enquanto o Centro-Oeste espera a água firmar, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul precisam de trégua para colocar a máquina no campo. O histórico mostra que a região costuma colher bem em ano de El Niño. Mostra também que parte desse ganho se perde quando a operação não acompanha. 

O que a Climatempo prevê para o Sul 

A previsão para outubro foi de chuva acima da média, principalmente no Paraná e em Santa Catarina, com temporais, vento forte e granizo, e temperatura próxima ou um pouco abaixo da média. Ao longo da primavera, a chuva mais forte migra do Paraná para o Rio Grande do Sul. A preocupação com chuva excessiva segue elevada em novembro e dezembro. 

O histórico é favorável, com um asterisco 

O Rio Grande do Sul ganhou produtividade em cinco das seis safras de El Niño desde 1982/83 e ficou estável na outra. Para 2026/27, a projeção oficial do estado é de 21,15 milhões de toneladas, 15% acima da safra anterior, em 6,6 milhões de hectares. 

O asterisco está em 2023/24. Naquele ano, em meados de novembro, o estado tinha só 22% da área semeada. No Paraná, a defesa agropecuária prorrogou o prazo de plantio até 31 de janeiro em duas regiões por causa das chuvas de outubro e novembro. E a enchente de maio de 2024 tirou 2,7 milhões de toneladas da colheita gaúcha, segundo a estimativa oficial do estado. 

Quanto custa atrasar a semeadura 

A época indicada para a soja no Rio Grande do Sul vai de 15 de outubro a 15 de dezembro, com os melhores resultados entre o fim de outubro e o fim de novembro. Depois disso a produtividade cai rápido. Um experimento de pesquisa em terras baixas de Pelotas mediu a diferença. 

Tabela 1. Produtividade da soja por data de semeadura em Pelotas (RS) 

Data de semeadura Produtividade (kg/ha) 
20 de novembro 2.713 
16 de dezembro 3.161 
6 de janeiro 2.033 

Resultado de um local e uma safra, usado como ordem de grandeza. 

Entre meados de dezembro e o início de janeiro, a perda foi de 36%. A lição prática: no Sul, esperar o solo secar em outubro e novembro custa pouco. Deixar a semeadura escorregar para janeiro custa muito. 

Os riscos de entrar com o solo encharcado 

  • Compactação e sulco mal fechado. O tráfego em solo saturado compacta, abre sulco irregular e distribui mal a semente. 
  • Podridão de fitóftora. Avança com água livre no solo e temperatura a partir de 25°C. 
  • Tombamento por rizoctônia. Ataca da pré-emergência até 30 a 35 dias, com calor e umidade altos. 
  • Mofo-branco. Favorecido por clima chuvoso e ameno, com temperatura entre 10°C e 21°C. 
  • Ferrugem-asiática. Precisa de pelo menos seis horas de folha molhada para infectar. Dias chuvosos seguidos também fecham a janela de aplicação. 

Como operar em janelas curtas 

  1. Ordene os talhões pela drenagem. Áreas altas e bem drenadas entram primeiro. As baixadas ficam para o fim da janela. 
  1. Deixe tudo pronto antes da trégua. Semente tratada, adubo na fazenda, plantadeira regulada. Em ano chuvoso, a janela de tempo firme dura dias. 
  1. Trate a semente com fungicida. É a proteção contra os fungos de solo nas primeiras semanas. 
  1. Dimensione a capacidade de plantio. Calcule quantos hectares por dia a sua estrutura semeia. Se a área inteira exige mais dias de tempo firme do que novembro costuma dar, vale contratar reforço. 
  1. Planeje a colheita desde já. O risco de chuva na colheita existe. Escalonar a semeadura e os ciclos distribui também a colheita. 
  1. Defina a data de corte. Estabeleça com o agrônomo o dia a partir do qual muda a cultivar ou o plano da área. 

O que acompanhar nos próximos dias 

  • A passagem das frentes frias e a duração de cada trégua. 
  • Os avisos de temporal, vento forte e granizo. 
  • A migração da chuva mais forte do Paraná para o Rio Grande do Sul ao longo da primavera. 

Conclusão 

No Sul, o El Niño forte entrega a água que faltou em safras recentes. O plantio de soja com excesso de chuva pede outra disciplina: esperar o solo, entrar rápido quando ele permite e proteger a lavoura de doenças