El Niño e a soja no Brasil: o que aconteceu nas seis últimas safras com o fenômeno 

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Sempre que o assunto é El Niño e a soja, a pergunta que chega primeiro é se a safra vai quebrar. O histórico responde com outra pergunta: onde você planta? Reunimos as seis safras colhidas sob o fenômeno desde 1982/83 e comparamos cada uma com a safra anterior, no Brasil e nos principais estados. 

O resultado contraria duas ideias comuns. El Niño não é sinônimo de quebra nacional. E os estados que perdem não são os mesmos a cada evento. 

El Niño e a soja em números: seis safras comparadas 

Tabela 1. Soja no Brasil em safras de El Niño 

Safra Intensidade do El Niño Produção (milhões de t) Produtividade (kg/ha) Variação da produtividade sobre a safra anterior 
1982/83 Muito forte 14,6 1.792 +14,5% 
1997/98 Muito forte 31,3 2.353 +2,4% 
2009/10 Moderado a forte 68,8 2.947 +11,8% 
2015/16 Muito forte 96,4 2.905 -4,1% 
2018/19 Fraco a moderado 114,3 3.185 -6,0% 
2023/24 Forte 144,5 3.147 -8,1% 

Produção e produtividade: dados oficiais de produção agrícola. Intensidade pela escala usada pela Climatempo para o índice da região Niño 3.4. 

Nas três primeiras safras, a produtividade nacional subiu. Nas três mais recentes, caiu. A diferença está na geografia da lavoura. Em 1997/98, Rio Grande do Sul e Paraná colhiam 44% da soja brasileira. Hoje colhem 21%. A produção se deslocou para o Centro-Oeste e para o Matopiba, onde o El Niño costuma atrasar a chuva. 

Quem costuma ganhar: o Rio Grande do Sul 

O Rio Grande do Sul ganhou produtividade em cinco das seis safras de El Niño e ficou estável na outra. 

  • 1982/83: de 1.192 para 1.548 kg/ha, alta de 29,9%. 
  • 1997/98: de 1.616 para 2.037 kg/ha, alta de 26,1%. 
  • 2009/10: de 2.099 para 2.611 kg/ha, alta de 24,4%. 
  • 2015/16: de 2.983 para 2.982 kg/ha, estável, com produção recorde para a época. 
  • 2018/19: de 3.104 para 3.179 kg/ha, alta de 2,4%. 
  • 2023/24: de 1.912 para 2.806 kg/ha, alta de 46,8% sobre uma safra de seca. 

O ganho, porém, vem com custo. Em 2023/24 a chuva em excesso atrasou a semeadura gaúcha e, em maio de 2024, a enchente pegou parte da colheita no campo. A estimativa oficial do estado apontou perda de 2,7 milhões de toneladas, com a produtividade esperada caindo de 3.329 para 2.923 kg/ha. No Sul, o El Niño entrega água. Transformar essa água em grão depende de conseguir plantar, tratar e colher entre uma chuva e outra. 

Quem perde muda a cada evento 

Os dois eventos intensos mais recentes mostram mapas de perda quase opostos. 

Tabela 2. Variação da produtividade da soja por estado sobre a safra anterior 

Estado 2015/16 2023/24 
Mato Grosso -7,1% -16,2% 
Goiás +17,2% -10,0% 
Mato Grosso do Sul -1,5% -23,4% 
Paraná -4,5% -13,4% 
Rio Grande do Sul 0,0% +46,8% 
Minas Gerais +22,6% -10,9% 
São Paulo +8,3% -26,7% 
Bahia -32,4% -3,7% 
Tocantins -20,3% -6,3% 
Maranhão -42,5% -2,6% 
Piauí -56,9% -1,6% 

Dados oficiais de produção agrícola. Variações calculadas pelo time Agroclima. 

Em 2015/16, o prejuízo se concentrou no Matopiba. A chuva que costuma chegar em outubro só veio em novembro e voltou a faltar em fevereiro, no enchimento de grãos. A produção somada de Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí caiu de 10,8 para 7,1 milhões de toneladas, uma queda de 34,6%. No Piauí, a produtividade ficou em 1.147 kg/ha, menos da metade da safra anterior. Em Mato Grosso, a chuva irregular de outubro atrasou o plantio no norte do estado, e a perda foi de 7,1%. 

Em 2023/24, o prejuízo migrou para o Centro-Sul. Calor e seca entre outubro e novembro pegaram a soja recém-semeada em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo. Mato Grosso replantou 5,54% da área, algo perto de 680 mil hectares. No Paraná, o problema começou como excesso de chuva na semeadura e terminou como calor e chuva mal distribuída a partir de dezembro. O Matopiba, que havia sido o epicentro em 2015/16, fechou praticamente estável. 

O dano do plantio só aparece inteiro na colheita 

Em dezembro de 2023, com o replantio já feito, a estimativa estadual era de queda de 7% na produção de Mato Grosso. O número final para o estado foi de 13,6% a menos, quase o dobro. Estande falhado, raiz superficial e ciclo encurtado pelo calor cobram a conta na floração e no enchimento de grãos, semanas depois de o problema parecer resolvido. 

Por isso o acompanhamento não pode parar quando a plantadeira sai do talhão. A lavoura que emergiu sob estresse precisa de atenção redobrada nas fases seguintes. 

O que o histórico não permite afirmar 

Seis safras são uma amostra pequena, e nenhum El Niño se repete. A intensidade não explica tudo: o evento fraco a moderado de 2018/19 coincidiu com queda de 6% na produtividade, e o muito forte de 1997/98 coincidiu com alta. O resultado depende de como o Pacífico se combina com o Atlântico, do momento em que as falhas de chuva acontecem e da fase em que a lavoura está. 

O histórico serve para mapear vulnerabilidades por região. Para decidir a data de plantio, o que vale é a previsão e o dado observado da sua área. 

O que o histórico indica para a safra 2026/27 

  • Centro-Oeste e Matopiba: nos dois últimos eventos intensos, a perda veio de falha de chuva logo depois do primeiro pulso. Para esta safra, a Climatempo aponta que em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal a chuva demora a regularizar e os veranicos continuam. No Matopiba, a preocupação é com atraso ou enfraquecimento da chuva. 
  • Sul: o potencial de boa produtividade existe, mas a Climatempo mantém elevada a preocupação com chuva excessiva em novembro e dezembro. O ganho histórico só se confirma para quem consegue operar e proteger a lavoura de doenças. 
  • Sudeste: em 2023/24, São Paulo teve uma das maiores quedas do país. O início antecipado da chuva neste ano não elimina o risco de veranico entre o fim de outubro e novembro. 
  • Segunda safra: replantio e atraso na soja empurram o milho e o algodão para fora da melhor janela. Quem decide o plantio da soja já está decidindo parte da safrinha. 

Conclusão 

O histórico de El Niño e a soja no Brasil mostra um padrão regional consistente e um resultado nacional que depende de onde a chuva falha. Para 2026/27, a Climatempo classifica o evento como El Niño forte e acompanha o cenário de cada região ao longo de toda a safra.