Produção de soja por estado: onde o Brasil colhe e o que o El Niño forte muda em cada região 

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A produção de soja por estado explica por que o mesmo El Niño forte pode ser um problema para um produtor e uma chance de safra cheia para outro. Metade do grão brasileiro sai de uma única região. E ela é justamente a que tem o início das chuvas mais sensível ao fenômeno. 

Antes de olhar a previsão, vale olhar o mapa. Quanto cada região colhe, quanto ela oscila de um ano para o outro e que tipo de risco predomina em cada uma nesta safra. 

Produção de soja por região: metade da safra sai do Centro-Oeste 

Na última colheita com dados oficiais fechados por estado, a da safra 2024/25, o Brasil produziu 165,3 milhões de toneladas de soja. A distribuição é bastante concentrada. 

Tabela 1. Produção de soja por região, safra 2024/25 

Região Produção (milhões de t) Participação Produtividade (kg/ha) 
Centro-Oeste 83,9 50,8% 3.771 
Sul 38,1 23,1% 2.831 
Nordeste 16,6 10,1% 3.669 
Sudeste 13,9 8,4% 3.711 
Norte 12,7 7,7% 3.498 
Brasil 165,3 100% 3.470 

Dados oficiais de produção agrícola. Participações calculadas pelo time Agroclima. 

A safra seguinte, 2025/26, foi fechada na estimativa oficial em 180,4 milhões de toneladas. Para 2026/27, a primeira projeção oficial é de 181,6 milhões de toneladas em 49,3 milhões de hectares. A produtividade média esperada é de 3.683 kg/ha, 0,8% abaixo do ciclo anterior. A área cresce 1,4% e o rendimento por hectare recua. A conta nacional já nasce com pouca gordura para absorver um erro de plantio. 

Os estados que decidem a safra 

Tabela 2. Produção de soja por estado, safra 2024/25 

Estado Produção (milhões de t) Participação Produtividade (kg/ha) 
Mato Grosso 50,2 30,4% 3.923 
Paraná 21,3 12,9% 3.646 
Goiás 20,3 12,3% 3.968 
Rio Grande do Sul 13,7 8,3% 2.012 
Mato Grosso do Sul 13,1 7,9% 3.077 
Minas Gerais 9,2 5,6% 3.869 
Bahia 8,6 5,2% 4.123 
Tocantins 5,1 3,1% 3.543 
São Paulo 4,7 2,9% 3.438 
Maranhão 4,4 2,7% 3.221 
Pará 4,4 2,6% 3.302 
Piauí 3,6 2,2% 3.356 
Santa Catarina 3,1 1,9% 3.811 
Rondônia 2,6 1,6% 3.754 

Dados oficiais de produção agrícola. Participações calculadas pelo time Agroclima. 

Três leituras saem dessa tabela. 

  • Mato Grosso responde por 3 de cada 10 toneladas. Uma queda de 10% na produtividade do estado tira cerca de 5 milhões de toneladas da oferta. É mais do que toda a produção de São Paulo. 
  • O Matopiba já tem o tamanho do Paraná. Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia somaram 21,7 milhões de toneladas, 13,1% do total. Dez anos antes, em 2014/15, eram 11,1%. 
  • O Rio Grande do Sul é o estado que mais oscila. A produtividade foi de 1.912 kg/ha em 2022/23, subiu para 2.806 em 2023/24 e voltou a 2.012 em 2024/25. São quase 900 kg/ha de diferença de um ano para o outro, sempre por causa da chuva. 

O que o El Niño forte muda em cada região produtora 

Na leitura do time técnico da Climatempo, o El Niño forte de 2026/27 não distribui o risco de forma igual. Ele atrasa a regularização das chuvas no Centro-Norte e aumenta a chuva no Sul. Cruzando essa leitura com a produção de cada região, o quadro fica assim. 

Tabela 3. Risco predominante no plantio e participação na produção 

Região Participação na produção Risco predominante no plantio Decisão mais sensível 
Centro-Oeste 50,8% Primeiras chuvas irregulares, períodos secos e quentes depois do primeiro pulso, veranicos entre outubro e novembro, sobretudo entre MT e GO Data de semeadura, risco de replantio e janela da segunda safra 
Matopiba e Norte 17,7% Retorno das chuvas sensível a atrasos, calor extremo e baixa umidade por mais tempo Separar a primeira chuva da estação firmada. Logística em distâncias longas 
Sudeste 8,4% Início antecipado possível em SP. Em MG, calor, atraso da regularização e veranicos entre o fim de outubro e novembro Escalonar a semeadura e preservar o ciclo 
Sul 23,1% Chuva acima da média, solo encharcado, menos sol e mais pressão de doenças Tráfego de máquinas, sanidade e atraso da semeadura 

Fonte: leitura regional do time técnico da Climatempo. Participações calculadas sobre dados oficiais de produção. 

Somando as três primeiras linhas, cerca de 77% da soja brasileira está em áreas onde a pergunta do plantio é se a chuva sustenta a lavoura. Os outros 23% estão onde a pergunta é se a chuva deixa a máquina entrar. De cada quatro toneladas, três dependem de chuva que firme e uma depende de chuva que dê trégua. 

Por que o mesmo fenômeno afeta mais a safra hoje do que há 30 anos 

Em 1997/98, ano de um dos El Niños mais intensos já registrados, Rio Grande do Sul e Paraná colheram juntos 44% da soja do país. Mato Grosso respondia por 23%. Naquela safra, a produtividade brasileira subiu. 

Em 2024/25, os dois estados do Sul somaram 21% e Mato Grosso passou de 30%. A soja migrou para o Cerrado e para o Matopiba, que são as áreas onde o El Niño costuma atrasar e desorganizar a chuva. O Sul, que historicamente ganha produtividade nesses anos, tem hoje uma fatia menor para compensar. 

O resultado é que o saldo nacional de um El Niño ficou menos favorável, por causa da mudança na geografia da lavoura. 

Como usar esse mapa na sua decisão 

  • Quem produz no Centro-Oeste, em Minas Gerais ou no Matopiba: a regra de entrada é umidade no perfil do solo e chuva com continuidade, e não a primeira pancada. Escalonar a semeadura reduz a parcela da área exposta ao mesmo veranico. 
  • Quem produz no Sul: o planejamento precisa caber em janelas curtas de operação. Vale priorizar os talhões com melhor drenagem e deixar semente, insumo e equipe prontos para entrar quando o solo permitir. 
  • Quem recebe, armazena ou transporta grão: atraso de plantio em Mato Grosso desloca o pico de colheita de 30% da soja do país. Acompanhar o ritmo de semeadura agora antecipa a pressão sobre frete e armazenagem em fevereiro. 

O que acompanhar nos próximos dias 

  • O ritmo do plantio em Mato Grosso, que define o pico de colheita de 30% da soja do país. 
  • A regularização da chuva em Goiás, em Minas Gerais e no Matopiba. 
  • O volume de chuva no Sul em novembro e dezembro. 

Conclusão 

A produção de soja por estado mostra onde o clima tem mais poder sobre a oferta. Nesta safra, três quartos do grão estão em regiões onde o risco é a chuva demorar a firmar.