Calor na soja: o que acontece com a lavoura a 38°C, 40°C e além

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O calor na soja costuma ficar em segundo plano nas conversas sobre El Niño, que giram em torno da chuva. Nesta safra ele merece o primeiro. Na leitura da Climatempo, o El Niño forte traz maior risco de calor no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste, e a previsão de outubro já indicava vários dias de 40°C ou mais em Mato Grosso e Goiás. Conhecer os limites da planta ajuda a entender o que esses dias significam para a lavoura. 

Os limites do calor na soja 

Tabela 1. Temperatura e resposta da soja 

Temperatura O que acontece 
10°C ou menos (ar) Crescimento pequeno ou nulo 
Abaixo de 13°C (ar) A floração não é induzida 
20°C a 30°C (ar) Faixa de melhor adaptação da cultura, com crescimento ideal perto de 30°C 
20°C a 30°C (solo) Faixa adequada para a semeadura, com 25°C como ideal 
Acima de 38°C (ar) Abortamento de flores e vagens 
Acima de 40°C (ar) Queda na taxa de crescimento 
Acima de 55°C (superfície do solo) Tombamento fisiológico das plântulas 

Referência agronômica para a cultura. 

No plantio: a superfície do solo é o problema 

A temperatura que o aplicativo mostra é a do ar, medida à sombra. A superfície de um solo descoberto, sob sol de outubro, fica muito mais quente e pode passar de 55°C. Nessa condição ocorre o tombamento fisiológico: uma lesão no caule da plântula, na altura do solo. A planta inclina e morre. Não existe tratamento depois que acontece. 

O dano costuma aparecer em reboleiras, nos pontos sem palhada, e pode ser confundido com doença. A diferença é o histórico: dias de sol forte e solo exposto logo depois da emergência. 

No vegetativo: mais consumo e ciclo mais curto 

Calor aumenta a perda de água do solo e da planta. A reserva que duraria dez dias com temperatura amena acaba antes. Temperaturas altas também aceleram o desenvolvimento e encurtam o ciclo, o que reduz o tempo para a planta formar estrutura. 

Em 2023/24, a soja de Mato Grosso do Sul enfrentou calor e chuva abaixo do esperado no início do ciclo. A produtividade do estado caiu mais de 20%. 

Na floração: o limite dos 38°C 

Acima de 38°C, a soja aborta flores e vagens. A planta emite mais flores do que consegue sustentar, e parte do abortamento é normal. O problema é o calor extremo durante vários dias seguidos, que reduz o número de vagens por planta. Somado à falta de água, o efeito é maior. 

Como proteger a lavoura do calor 

  • Palhada. É a principal defesa contra a temperatura da superfície e a única que funciona na emergência. 
  • Semear com perfil recarregado. Solo úmido aquece menos e sustenta a planta. 
  • Evitar semeadura rasa em solo exposto. A semente perto da superfície fica na camada mais quente. O outro extremo também prejudica: a mais de 7 cm, a emergência fica difícil. 
  • Escolher cultivares com melhor tolerância a estresse térmico e hídrico. A recomendação consta da leitura da Climatempo para o Centro-Oeste nesta safra. 
  • Escalonar. Áreas em fases diferentes não florescem na mesma onda de calor. 
  • Ajustar o horário das aplicações. Calor forte e umidade baixa reduzem a eficiência de defensivos. 

O que acompanhar nos próximos dias 

  • O número de dias seguidos com máxima acima de 38°C na previsão. 
  • A chuva prevista para o mesmo período. Calor com solo úmido causa menos dano. 
  • Os talhões sem palhada, que são os primeiros a mostrar tombamento. 

Conclusão 

O calor na soja age em todas as fases: mata plântulas pela superfície do solo, acelera o consumo de água e derruba flores acima de 38°C. Em ano de El Niño forte, a previsão de temperatura merece a mesma atenção que a de chuva.