O El Niño na safra de soja 2026/27 chega com intensidade forte, segundo a leitura do time técnico da Climatempo, com elevados índices de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4. Na prática, isso significa maior chance de os padrões de chuva e temperatura se afastarem da média histórica ao longo de todo o plantio.
A soja é a principal cultura e o principal item de exportação do Brasil, e a safra 2025/26 foi recorde, com cerca de 177 milhões de toneladas em 48,9 milhões de hectares. Ainda assim, o clima é o fator que mais explica a variação de produtividade entre safras, e o risco do El Niño forte já aparece nas projeções para 2026/27: a produtividade média nacional estimada recuou para 3.683 kg/ha, ante 4.335 kg/ha na safra anterior, e a área plantada deve crescer apenas 1,4%, para 49,3 milhões de hectares, o menor avanço percentual dos últimos 20 anos.
Como o El Niño muda o risco por região na safra 2026/27
O risco não é igual em todo o Brasil. Na leitura da Climatempo, o Centro-Oeste enfrenta a pergunta central: a primeira chuva sustenta a implantação até a regularização do regime? Ali, as primeiras chuvas irregulares e o risco de veranicos entre outubro e novembro, sobretudo entre Mato Grosso e Goiás, pressionam também o calendário da safrinha. No Sul, o risco se inverte: chuvas acima da média, solo úmido e dificuldade de tráfego de máquinas, além de mais umidade favorecendo doenças.
No Sudeste, São Paulo pode ter início antecipado, enquanto Minas Gerais tende a conviver com calor e atraso na regularização das chuvas. Já no Matopiba e no Norte, o retorno da chuva é mais sensível a atrasos, com calor extremo e baixa umidade por períodos mais longos. Essa divisão regional deveria orientar, portanto, decisões diferentes de plantio conforme a área.
O que aprender com o último El Niño antes de plantar a soja 2026/27
A safra 2023/24 também foi marcada pela influência do El Niño, e a irregularidade das chuvas comprometeu o estabelecimento das lavouras naquele ciclo. Em Mato Grosso, o resultado foi uma das menores produtividades médias da década. É um precedente relevante para 2026/27: o mesmo padrão climático pode se repetir com efeitos parecidos se a janela de plantio não for bem calibrada. E o calendário regulatório entra junto na conta.
Em Mato Grosso, o ZARC da soja 2026/27 (Portaria SPA/MAPA nº 202) determina a observância conjunta do vazio sanitário e do calendário de plantio, com semeadura liberada de 7 de setembro de 2026 a 7 de janeiro de 2027. Em Mato Grosso do Sul, o vazio sanitário vigorou até 15 de setembro, liberando a semeadura entre 16 de setembro e 31 de dezembro.
Cada estado tem sua própria janela, e ela deve ser confirmada antes de qualquer decisão de plantio.
Como transformar a previsão climática em decisão de plantio
O ZARC identifica municípios aptos e períodos de semeadura com risco reduzido de perda por eventos climáticos adversos, mas trabalha com médias históricas e janelas fixas. A soja se desenvolve melhor entre 20°C e 30°C, não cresce abaixo de 10°C, e temperaturas acima de 40°C prejudicam a floração e a retenção de vagens.
O período de floração e enchimento de grãos é a fase mais crítica para a disponibilidade hídrica da cultura. Ou seja, o zoneamento define o intervalo seguro, mas não substitui o acompanhamento da safra em curso. Diante de um El Niño forte, a decisão de quando plantar, esperar ou replanejar depende de uma leitura atualizada da chuva e da temperatura, região por região, e até semana a semana.
Conclusão
O El Niño na safra de soja 2026/27 não elimina a viabilidade do plantio, mas estreita a margem de erro nas decisões de janela, manejo e logística. Acompanhar a evolução do clima por região, e não apenas o cenário nacional, é o que separa uma decisão informada de uma aposta. A Climatempo reúne, na cobertura da Safra da Soja 26/27 do Agroclima, previsões próprias, análises técnicas e um webinar por fase, do planejamento à pós-colheita, para apoiar essas decisões ao longo de todo o ciclo